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Como usar IA para criar conteúdo jurídico nas redes sem perder a autenticidade (e sem ferir o Provimento 205)

Um método em cinco etapas para a IA fazer o trabalho pesado do conteúdo, o que só o advogado pode colocar no post, os dados que nunca entram na ferramenta e o que o Provimento 205 diz sobre texto e imagem gerados por máquina.

Por Jamila Guerra8 min de leitura

Advogada de terno usando o celular e o notebook ao lado da janela, com prédios ao fundo
Imagem ilustrativa. Banco de imagens Magnific

A inteligência artificial escreve um carrossel em segundos. O problema é que escreve o mesmo carrossel para todo mundo. Marketing jurídico com IA funciona quando a ferramenta faz o trabalho pesado, como pesquisar, organizar e propor uma primeira versão, e o advogado coloca no texto o que nenhuma máquina tem: experiência, opinião técnica e o jeito próprio de explicar.

Este guia mostra um método em cinco etapas para usar a IA no conteúdo das redes, o que só você pode colocar no post, os dados que nunca entram na ferramenta e o que o Provimento 205 diz sobre texto e imagem gerados por máquina.

Por que a autenticidade virou a regra do jogo

Em outubro de 2026, uma reportagem da Conjur resumiu o momento: o marketing jurídico passou da fase das métricas de vaidade, como número de seguidores e vídeos em série, para a fase da reputação, em que o que conta é transformar audiência em confiança. Quem procura um advogado quer sentir que está falando com uma pessoa que entende do assunto, e não com um gerador de frases.

A IA, usada sem cuidado, vai na direção contrária. Se dez escritórios pedem à mesma ferramenta “um post sobre pensão alimentícia”, recebem dez textos quase iguais. O seguidor percebe, e o algoritmo das redes também tende a distribuir menos o que não gera conversa.

E há um segundo motivo, mais sério: o que vai ao ar é responsabilidade de quem assina. O art. 1º, § 1º, do Provimento 205/2021 diz que as informações devem ser “objetivas e verdadeiras” e são de responsabilidade exclusiva das pessoas identificadas. A IA não responde perante a OAB. Você responde.

O que a OAB diz sobre usar IA no conteúdo

Não existe, até a data deste artigo, uma regra da OAB proibindo o advogado de usar IA para criar conteúdo. O que existe são três referências que se somam:

  • Provimento 205, Anexo Único. Ferramentas tecnológicas podem ser usadas para tornar o advogado mais eficiente, “sem suprimir a imagem, o poder decisório e as responsabilidades do profissional”. A criação de conteúdo deve ter “caráter técnico informativo”, sem divulgar resultados, clientes, valores ou gratuidade.
  • Recomendação 001/2024 do Conselho Federal. Orienta a não tornar o cliente identificável ao inserir dados em sistemas de IA, a escolher ferramentas que não usem os dados para treinamento, a revisar tudo o que a máquina produz e a informar quando o interlocutor é um chatbot.
  • Código de Ética. O art. 41 diz que os textos que o advogado publica não devem induzir o leitor a litigar, e o art. 42, I, proíbe responder com habitualidade a consulta sobre matéria jurídica nos meios de comunicação social. Isso vale para o texto feito com IA e também para as respostas nos comentários.

Um aviso: a revisão do Provimento 205 está em andamento no Conselho Federal, e o tema da IA está no debate, mas o texto novo ainda não foi publicado. As regras acima são as que valem hoje.

Um método em 5 etapas para criar conteúdo com IA

1. A pauta vem do seu atendimento, não da IA

Abra o WhatsApp do escritório e anote as dúvidas que mais se repetem na semana. “Posso sair de casa antes do divórcio?” “O INSS pode cortar o benefício sem perícia?” Essas perguntas, sem nome nem detalhe do caso, são as melhores pautas que existem, porque são exatamente o que o seu público pergunta. A IA pode ajudar a agrupar e priorizar, mas a matéria-prima é sua.

2. Peça estrutura, não texto pronto

Em vez de “escreva um post sobre guarda compartilhada”, peça: “liste as 5 dúvidas mais comuns de quem está se separando sobre guarda compartilhada e, para cada uma, a base legal que eu preciso conferir”. Você recebe um roteiro para pensar, e não um texto para colar.

3. Escreva o miolo com a sua experiência

Aqui entra o que só você tem:

  • Um exemplo concreto, sem identificar ninguém: “é comum o cliente chegar achando que…”
  • A sua opinião técnica: o que você recomenda observar, o erro que mais vê, o ponto em que a lei costuma ser mal entendida.
  • O seu jeito de falar: as palavras que você usa no atendimento, o tom com que explica.

Pode ditar em áudio e pedir para a IA transcrever e organizar. O conteúdo continua sendo seu.

4. Use a IA para lapidar o formato

Com o miolo escrito, a IA ajuda no que é técnica de formato: transformar o texto em 8 slides de carrossel, propor 5 opções de capa, encurtar a legenda, sugerir um roteiro de 40 segundos para vídeo. Peça sempre “mantenha as minhas palavras e só reorganize”.

5. Revise duas vezes: a lei e a ética

  • A lei. Confira cada artigo, prazo e número citado na fonte oficial. A IA erra legislação e inventa jurisprudência com a mesma confiança com que acerta, como mostramos no guia sobre jurisprudência falsa gerada por IA.
  • A ética. Cole o texto e peça à IA que aponte promessa de resultado, autoelogio, comparação, preço, gratuidade e frases que incitem o litígio. É um filtro inicial, e a palavra final é sua.

O que nunca entra na ferramenta de IA

Uma pesquisa da Associação dos Advogados de São Paulo (AASP), divulgada pelo Metrópoles em outubro de 2026 com cerca de 300 respostas, mostrou que 50,4% dos participantes não sabem ou não têm certeza sobre quais dados de clientes podem colocar em ferramentas generativas. A mesma pesquisa apontou que só 16,7% contam com política formal de uso de IA.

Para o conteúdo das redes, a regra prática é simples. Não entram na IA:

  • Nome, CPF, telefone ou qualquer dado que identifique o cliente.
  • Número de processo, nome da vara, datas e valores do caso.
  • Prints de conversas, documentos e decisões de processos que você patrocina.
  • Qualquer coisa que você não publicaria numa rede social aberta.

O sigilo é de ordem pública e independe de pedido do cliente (art. 36 do Código de Ética). Se o escritório ainda não tem regras escritas, veja o nosso modelo de política de uso de IA no escritório.

Imagem e vídeo gerados por IA: o cuidado com o que parece real

As ferramentas de imagem e de vídeo com IA facilitam muito a produção visual. O limite está na verdade da informação. O art. 3º, II, do Provimento 205 proíbe divulgar informações que possam induzir a erro, e o art. 6º veda, na publicidade ativa, falar das dimensões e da estrutura física do escritório.

  • Pode: ilustrar um tema, como uma balança, um documento ou uma família num cenário genérico, desde que fique claro que é ilustração.
  • Evite: gerar fotos de um escritório, de uma equipe ou de um evento que não existem, ou colocar o seu rosto em situações que não aconteceram.
  • Não use: avatar ou voz sintética apresentando “casos” e “resultados”, porque o problema não é a ferramenta, e sim a vedação de casos concretos e de promessa de resultado.

Marca, imagem e identidade visual: o que a IA deixa tudo igual

O texto não é o único ponto em que a IA nivela os escritórios. As ferramentas de imagem tendem às mesmas soluções: a mesma balança dourada, o mesmo martelo de juiz, a mesma paleta azul-marinho, as mesmas fotos de banco de imagens com gente de terno sorrindo. Quando dez escritórios usam os mesmos comandos, o feed de todos fica parecido, e o seguidor não lembra de quem era o post que salvou.

A marca do escritório é o que impede essa confusão. Ela é permitida e protegida pelo Provimento 205, que autoriza o uso de logomarca, imagens, fotos dos advogados e do escritório e identidade visual nos meios de comunicação profissional (art. 5º, § 2º). Na prática, cuide de quatro pontos:

  • Identidade visual fixa. As mesmas cores, fontes e tratamento de imagem em todos os posts. Entregue esse guia para a ferramenta de IA em vez de deixar que ela escolha.
  • Imagem real sempre que possível. Fotos suas, da equipe e do escritório contam mais do que qualquer ilustração genérica, e nenhuma IA consegue reproduzi-las.
  • Tom de voz e público definidos. Um escritório de direito de família fala diferente de um de direito empresarial. Escreva quem é o seu público e como você fala com ele.
  • Área de atuação no centro. Conteúdo que serve para qualquer área não constrói autoridade em nenhuma.

Uma observação: o sinal da OAB e os símbolos oficiais da Ordem continuam proibidos em qualquer peça (art. 5º, § 2º), mesmo que a ferramenta os sugira.

Como manter a sua voz com a ajuda da IA

Monte um arquivo de referência e entregue para a ferramenta sempre que for criar um texto:

  1. Cinco posts seus que você considera bons, de preferência os que geraram mais conversa.
  2. Uma lista de palavras que você usa e outra das que você evita.
  3. As regras fixas: sem promessa de resultado, sem juridiquês desnecessário, sempre com a base legal conferida.

Com esse arquivo, a IA passa a propor textos mais próximos do seu jeito, e a revisão fica mais rápida. Para os formatos de cada rede, veja o guia de Instagram para advogados.

Se você quer saber como o conteúdo do escritório está ajudando, ou não, a trazer contatos, faça o Diagnóstico do Escritório.

Checklist do marketing jurídico com IA

  • Pauta tirada das dúvidas reais do atendimento
  • IA para estrutura e formato, não para o miolo
  • Um exemplo concreto e uma opinião técnica sua em cada post
  • Nenhum dado de cliente dentro da ferramenta
  • Lei, prazo e número conferidos na fonte oficial
  • Revisão pelo Provimento 205 antes de publicar
  • Identidade visual, tom de voz, público e área definidos e entregues à IA
  • Imagem de IA só como ilustração, sem simular o que não existe
  • Dúvida de caso concreto nos comentários sem resposta jurídica em público (art. 42, I, do Código de Ética)

Marketing jurídico com IA é a soma de velocidade e critério: a ferramenta acelera a produção, e a experiência do advogado é o que faz o conteúdo ser lembrado.

Perguntas frequentes

Advogado pode usar IA para criar posts?

Pode. O Anexo Único do Provimento 205/2021 permite o uso de ferramentas tecnológicas para tornar o advogado mais eficiente, desde que não suprimam a imagem, o poder decisório e as responsabilidades do profissional. O conteúdo publicado continua sendo responsabilidade de quem assina, como diz o art. 1º, § 1º, do mesmo provimento.

Posso colocar casos de clientes no ChatGPT para virar post?

Não com dados que identifiquem o cliente. A Recomendação 001/2024 do Conselho Federal da OAB orienta a não tornar o cliente identificável ao usar IA generativa, e o sigilo profissional vale para qualquer comunicação entre advogado e cliente (art. 36 do Código de Ética). Para virar conteúdo, transforme a situação em uma dúvida geral, sem nomes, datas ou detalhes do caso.

Imagem gerada por IA pode ser usada no Instagram do escritório?

Pode, desde que não engane o público. O Provimento 205 exige informações objetivas e verdadeiras e proíbe divulgar o que possa induzir a erro. Imagem de escritório, equipe ou evento que não existe passa uma informação falsa; ilustração de um tema, identificada como tal, é outra coisa.

Como saber se o meu post parece feito por IA?

Leia em voz alta: se não soa como você falaria com um cliente, reescreva. Frases genéricas, listas que servem para qualquer área e ausência de exemplo concreto são os sinais mais comuns. A versão final precisa ter a sua experiência e a sua opinião técnica.

Fontes

Foto de Jamila Guerra

Quem escreveu

Jamila Guerra

Sócia-diretora da ElevateLaw

  • Graduada em Direito pela UFV
  • Master em Branding pela ESPM
  • Pós em Gestão Estratégica de Marketing pela HSM
  • MBA em Negócios Financeiros pela PUC Rio
  • + 6 anos coordenando uma Assessoria de Marketing
  • + 6 anos de recorrência com cliente da advocacia

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